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A formação do olhar sensível

 

 A educação pelo olhar – prática e reflexão da arte

A criação da Galeria de Arte da Escola Comunitária de Campinas

 

Tina Gonçalez  

 

A formação do olhar sensível

Durante as aulas de artes sempre pensamos que a construção do saber artístico é reforçada pelo contato direto com a obra de arte. No entanto, os estudos do meio a museus e instituições culturais estão previstos apenas em algumas séries e com algumas saídas durante o ano. A forma de ampliar esse contato e socializá-lo seria trazer a arte para a escola.  A criação de uma Galeria de Arte em 1996 foi fundamental para que essa ideia tomasse um norte diferenciado no ensino da arte na Comunitária e se tornasse um dos pontos reconhecidos por outras instituições e pela sociedade.

A educação em arte é baseada na crença de que a construção do conhecimento se faz por meio da análise da produção cultural da sociedade, o que possibilita a formação de um  repertório conceitual e prático. 

No entanto, compreender a complexidade do mundo em que vivemos é uma tarefa árdua, que exige uma reflexão constante sobre os fazeres, os conceitos e os valores da sociedade em todas as áreas do conhecimento e da cultura.

Saber o que é válido para um povo ou uma época ou para outro povo em outra época significa lançar um olhar ao que já foi feito e pensado, para tentar entender as ações do presente.

A arte, como parte da atividade social, sofre as mesmas mutações e interações que perpassam a sociedade. As reflexões sobre a presença da arte no mundo, sobre o papel do artista, sobre o produto artístico e a função social da arte não refletem apenas o pensamento da parcela da sociedade estritamente ligada a esse assunto, mas se estendem a toda ela.

A clássica pergunta “Isso é arte?”, feita pelo espectador menos preparado, indica o anseio de compreensão do objeto artístico e implica a necessidade de compreender por que a arte existe ou como surgiu.

“Por quê?” e “quando?” tal obra foi realizada são os questionamentos subsequentes e complementares dessa pergunta inicial.

A reflexão sobre a arte pode ser iniciada a partir daí. Pensar a arte é também ponderar sobre o produto artístico e seu produtor. Nesse contexto, a arte e o artista funcionam quase como sinônimos – um não existe sem o outro. A origem de um é a origem do outro.

A razão de a arte existir indica a necessidade que o indivíduo tem de se exprimir e transformar a sua ação em um produto artístico. Esse é um dos pontos cruciais do ensino da arte: compreender o produto artístico e saber analisá-lo. No entanto, a vastidão de conceitos, linguagens e ações que permeiam o campo da Arte pode nos levar a algumas definições que não são claras e nem correspondem verdadeiramente ao seu discurso.

É comum observar os diversos produtos culturais das diferentes sociedades e não saber como interpretá-los.

Afinal, o que distingue a manifestação artística da manifestação social? Qual é o cunho de valor dado aos artefatos produzidos pela humanidade para serem considerados obras de arte? Qual o papel da arte na formação do indivíduo?

A compreensão da obra de arte – a consciência crítica da obra, condizente com o mundo em que se vive – requer que todos os elementos pertencentes àquele momento sejam sopesados. Vale observar que, quando falamos “obra de arte”, estamos considerando que essa obra é um “objeto cultural”, termo empregado por Fernando Hernandez (Hernandez 2000), quando fala dos artefatos artísticos produzidos pela sociedade.

Geralmente, quando se pensa em Arte, é comum virem à mente as imagens, os sons e outras formas da expressão cultural que foram denominadas como pertencentes a essa área. A sensação de abismo que o cidadão comum sente em relação ao produto artístico é ampliada, quando ele se defronta com as diversas formas e meios como esse produto é apresentado na sociedade contemporânea e, mais intensamente, em uma metrópole.

Da janela do carro ou do transporte urbano, o cidadão vislumbra um outdoor, uma obra arquitetônica, um monumento escultórico, uma instituição cultural, o letreiro de uma casa comercial – uma confluência de objetos urbanos e veículos de comunicação de massa que se amalgama com os produtos artísticos. 

Em meio a tanta informação, torna-se difícil saber como identificar uma obra de arte, saber sobre o autor.  A linha tênue que diferencia um produto artístico de um não artístico, muitas vezes não percebida de forma clara, gera um incômodo descompasso.

Em diversas exposições ou museus, ouvem-se algumas frases do espectador menos preparado, como: “Isso eu também sei fazer”, “Aquilo meu filho também faz”, ou “Eu jamais compraria essa obra para enfeitar a minha casa”.

Esses comentários correspondem ao pensamento daqueles que não acompanharam as modificações ocorridas no processo criativo da obra de arte. O conceito de beleza que se pauta na aparência do objeto ou na representação simbólica do mundo pelo viés do deleite já foi rompido por obras de épocas anteriores e, nos dias atuais, torna-se mais forte.

É comum que a arte de hoje produza outros significados de “beleza”, que causam sentimentos diversos que, muitas vezes, caminham na direção oposta do prazer e da contemplação passiva da obra, como: o estranhamento, a repulsa e o desconforto do espectador com a obra.

O senso que estabelece que a obra de arte deva promover o prazer e a contemplação distancia-se cada vez mais da pretensão do artista contemporâneo.  A obra de arte espelha a realidade da sociedade, os processos artísticos e a própria busca do artista de tentar entender o mundo por um viés que não seja o da mera representação técnica desse mundo. A questão da ideia intelectual do belo, iniciada na Renascença e expandida no século XVIII, foi modificada pelo conceito impresso por Kant na teoria metafísica da beleza, a intencionalidade sem intuição.

Essa teoria estende-se até os dias atuais, em que os objetos artísticos não aspiram à beleza — no sentido do prazer, da harmonia ou da aspiração divina da natureza — e buscam a intencionalidade da criação, mas sem, necessariamente, servir a propósito algum, como se observa na obra de Marcel Duchamp, de Strawinsky ou de Pirandello. O conceito de beleza é revisto pelo prisma da verdade, da subjetividade e da busca que o artista tem por transformar a sua percepção em obra de arte. A forma como ela será apresentada reflete a intenção do artista e a sua ideia.  A verdade, vista pelo prisma da ética, pauta-se no sentimento de genuinidade que ele quer transmitir.

Dizia o poeta John Keats [1795-1821] que a beleza era a verdade e a verdade a beleza. À “verdade” e à “beleza metafísica”, somam-se o sublime e a noção máxima de uma outra sensibilidade estética do “belo”.

Diante do que o mundo oferece, a arte é um veículo para a associação e a circulação de ideias e experiências. Ela é precursora das transformações da sociedade. Não se acomoda nos moldes da sociedade comum.  Em muitos momentos, é a mola propulsora de novas modificações sociais e inventivas. Na educação em arte, compreender o papel da arte na sociedade é observar a evolução do significado da arte. Esta, assim como a vida, está presente em todos nós. Cabe-nos desenvolvê-la. A formação do olhar é feita olhando o invisível, a essência da alma, as particularidades do mundo. Mais importante que a formação do artista é a promoção da sensibilidade à arte. Dessa maneira, percebemos as coisas que nos rodeiam e, consequentemente, reconhecemos a importância da nossa presença no mundo.

O ensino de Arte é fundamental para a formação do indivíduo sensível à multiplicidade cultural presente nos diversos espaços sociais.

As transformações ocorridas na sociedade têm promovido que a formação educacional do aluno não fique estagnada, submetida a modelos estanques que não promulguem a conscientização do papel do indivíduo na sociedade.

Alçar o ensino de Arte à mesma categoria das demais áreas do conhecimento não é mais novidade. Herbert Read (1982, p.24), quando assume que “a arte é a representação e a ciência é a explicação - da mesma realidade”, aborda a importância que o ensino da arte tem no sistema educacional, ocupando o mesmo patamar das demais áreas. O fazer artístico produzido pelas diversas sociedades e em diferentes épocas constitui o pressuposto da compreensão da significação da arte na sociedade e de como participar desse processo com criatividade e crítica. Cada vez mais se percebe que o ensino da arte na instituição escolar não deve ficar dissociado do produto artístico produzido pela sociedade.

De acordo com a arte-educação, a expressão criativa do aluno é desenvolvida juntamente com a construção do conhecimento em Arte e com a formação do senso apreciativo do produto artístico. É o que podemos considerar como o fazer, o conhecer e o apreciar, ou seja, a realização pessoal do aluno alicerçada pela formação de uma bagagem cultural e de uma visão crítica dessa obra. Essas questões estão intimamente entrelaçadas, tanto no sistema educacional como na sociedade. Segundo Ana Mae Barbosa, o que determina a construção de um “olhar” e de um “fazer” cultural é a própria cultura e o modo como nos postamos diante dela, como a arte se constrói e como a sociedade a entende e a avalia.

Ações que envolvem o cotidiano e a educação estética, integradas ao fazer artístico, à apreciação, e à contextualização histórica, possibilitam a compreensão do aluno no sentido de saber o que é arte.

Complementando esse pensamento, Ana Mae Barbosa diz que não é possível o desenvolvimento de uma cultura sem o desenvolvimento das suas formas artísicas, e que a pretensão da arte na escola é:

formar o conhecedor, fruidor e decodificador da obra de arte. Uma sociedade só é artisticamente desenvolvida quando ao lado de uma produção artística de alta qualidade há também uma alta capacidade de entendimento desta produção pelo público. (BARBOSA 1998, p. 32)

 

No entanto, a educação em Arte exige preparação e compreensão do que está sendo proposto.

A questão do gosto, um dos pontos centrais na compreensão da arte, pode ser seriamente confundida com conhecimento espontâneo da obra, o que seria um erro. Gostar de determinada obra, mesmo que o espectador se acredite “livre” para opinar, implica a bagagem cultural que cada um adquire na vida e “na reação do complexo de elementos culturais que estão dentro de nós diante do complexo cultural que está fora de nós, isto é, a obra de arte.” (Coli 1981, p.118).

Conhecer a arte implica vivenciar, frequentar, estabelecer contato com os objetos estéticos, buscando a fruição da obra. No entanto, a fruição da arte não é imediata, espontânea, nem dom ou graça. É necessário esforço diante da cultura. Para conhecer o jogo é necessário conhecer suas regras. Mas só isso não basta. A “frequentação” é que determina o grau de avaliação e participação.

Educar em arte é também educar a sensibilidade e a percepção de mundo.

As instituições culturais – museus e galerias - acolhem os diferentes objetos artísticos produzidos pela sociedade como um todo, permitindo que eles sejam contemplados, analisados e questionados. A formação cultural do aluno perpassa pela oportunidade de vivenciar a arte no seu ambiente.

Pensando nesta questão e ampliando as oportunidades oferecidas aos alunos é que o ensino de arte na Escola Comunitária de Campinas se fundamentou, pautado na premissa de que pela educação do olhar sensível se constrói o sujeito que olha o mundo com a alma.

A criação de uma galeria de arte dentro do espaço escolar – a  Galeria de Arte da Escola Comunitária - , tem permitido que essa formação seja intensificada, não se restringindo apenas aos alunos, mas estendendo-se a todos que frequentam a instituição – pais, professores, funcionários e demais cidadãos.

 

 

 


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